Pastoral

15 de novembro de 2020

Atos 3.20

 

[20] a fim de que, da presença do Senhor, venham tempos de refrigério, e que envie ele o Cristo, que já vos foi designado, Jesus.

Pensar no período que antecede a segunda vinda de Cristo é pensar naquilo que Paulo chama de os “últimos dias”. Um tempo que é mencionado como difícil “Sabe, porém, isto: nos últimos dias, sobrevirão tempos difíceis” (2 Tm 3.1). Tempos difíceis por causa dos homens (2 Tm 3.2). Os homens, em suas atitudes diárias, dificultarão em muito esse período anterior à consumação dos séculos.

Diante de tantas dificuldades da vida (doença, desemprego, fome...) o que fazer para amainar dias tão difíceis?

Fácil pensar em possíveis caminhos. Com certeza, um deles é esperar que o próprio Deus amenize, mitigue e diminua dias tão cinzas “O Senhor o assiste no leito da enfermidade, na doença, tu lhe afofas a cama” (Sl 41.3). Não só na figura de quem mitiga o sofrimento em seu próprio lugar de estabelecimento, como também na figura de um pastor que guia suas ovelhas por lugares tão áridos e ambientes hostis “[1] O Senhor é o meu pastor; nada me faltará. [2] Ele me faz repousar em pastor verdejantes. Leva-me para junto das águas de descanso; [3] refrigera-me a alma. Guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome” (Sl 23.1-3). Do ponto de vista divino, com certeza são ações legitimamente aguardadas pelos seus. Se mudarmos o referencial, é possível ver como o homem pode agir para que obtenha do Senhor esses tempos de refrigério.

Sem dúvida alguma, o evangelista Lucas dá a sua contribuição no sentido de elucidar esse mister. E faz isso por um lugar, caminho ou vereda talvez inimaginável (erroneamente) por muitos, a saber, o caminho do arrependimento.

Os apóstolos Pedro e João subiram ao templo com o objetivo de orar (At 3.1). Em um daqueles dias não planejados em que experimentamos da graça de Deus de forma abundante, o povo se encheu de “admiração” e “assombro” (At 3.10) após a cura de um coxo de nascença (At 3.2). O povo, atônito, busca aqueles que trouxeram cura para o sofrimento físico, em uma espécie de última cartada ou, quem sabe, na busca por um arroubo de alívio diante de tanto sofrimento. Pedro então discursa nessa circunstância. O que diria a uma plateia nessa circunstância? Qual seria o conteúdo de sua homilia se estivesse em uma situação semelhante?

Talvez poucos imaginariam que o arrependimento seria um desses caminhos viáveis para se alcançar o que todos gostariam de experimentar, a saber, tempos de refrigério. Ainda que pessoas tenham atitudes cometidas na ignorância (At 3.17), elas precisam trilhar essa “via dolorosa” para encontrar no fim dela esse sossego para a alma, aflita e cansada (Pv 3.8; 1 Co 16.18).

Essa via é uma via viável. Em vez de ficar atônito e admirado pelo que Deus pode fazer “por dentro” do corpo físico humano, curando feridas onde a nova salubridade se reverbera em um corpo agora saudável, o homem deveria se espantar no que Deus pode fazer “por dentro do interior” (redundante eu sei) alcançando finalmente paz (Rm 5.1). Esse deve ser o verdadeiro assombro.

Os acontecimentos recentes ali em Jerusalém, adverte o apóstolo Pedro, foram profetizados no AT. Isso não era para ser uma surpresa. Em vez de olhar para o coxo, deveria o povo olhar para Cristo, o único que pode trazer a verdadeira saúde, o real descanso e refrigério. Quando o homem se arrepende de seus pecados, ainda que cometidos por ignorância, o cancelamento desses pecados traz esses novos tempos. Essa é uma das bençãos que vêm junto com o cancelamento dos pecados.

Todos estão atrás desse descanso, mas, nem todos tem o mesmo ânimo para trilhar o caminho dessa estrada, por vezes tão deserta, em dias que deveria estar movimentada “[11] Pelo que por lábios gaguejantes e por língua estranha falará o Senhor a este povo, [12] ao qual ele disse: Este é o descanso, dai descanso ao cansado; e este é o refrigério; mas não quiseram ouvir (Is 28.12). Deus conceda que seu povo trilhe essa via alcançando aquilo que só é possível alcançar através dela. E quem sabe poderemos ter uma estrada cheia como em dias de trânsito no horário de pico, nas grandes cidades. Um bom engarrafamento. Quem sabe. Um bom engarrafamento da alma. Bom trânsito cheio a todos.

Rev. João Geraldo de Mattos Neto

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