Pastoral

DESAFIOS QUE NOS FAZEM CRESCER

Domingo, 25 de julho de 2021.

A maioria de nós não gosta de nada ou de ninguém que nos provoque ou nos critique ... pior ainda, que zombe de nós.

O nosso natural – a propensão humana - é nos mantermos no estado mais cômodo, mais confortável, como por exemplo: continuar sentado, em estado de latência; continuar na cama, após acordar; deixar arquivos por organizar; a casa e o terreiro por limpar; os estudos por começar ou concluir, etc.

É por isso que quando alguém chama a nossa atenção, mesmo sabendo que essa pessoa está certa, “fingimos não gostar”. Porque isso nos tira da zona de conforto. Ainda mais quando essa cobrança vem em forma de crítica, de deboche, de ironia e, pior ainda, de desdém!

No reino animal, temos o exemplo citado por Rubem Alves, em seu livro “Ostra feliz não faz pérola”. Em linhas gerais ele diz que a pérola não é natural na ostra, na verdade é um tipo de mutação que ocorre quando um grão de areia entra na cavidade daquele molusco. É um corpo estranho que a ostra rejeita envolvendo-o com uma substância que se solidifica de forma lisa e arredondada que conhecemos como pérola, que é muito valiosa. Na visão do poeta, esse grão de areia causa dor à ostra e ela pensa: “Preciso envolver essa areia pontiaguda que me machuca com uma esfera lisa que lhe tire as pontas…”.

Na Bíblia, temos o exemplo de Ana e Penina; ambas, esposas de Elcana (na época ter esposas e concubinas era normal; não era normal a mulher não ter filhos). Ana era a mais amada, porém não tinha filhos. Penina, que para alguns seria a concubina, não era a mais amada, porém deu muitos filhos a Elcana. Diz assim o texto de 1 Samuel 1:3-8:

“Todos os anos esse homem subia de sua cidade a Siló para adorar e sacrificar ao Senhor dos Exércitos. Lá, Hofni e Finéias, os dois filhos de Eli, eram sacerdotes do Senhor. No dia em que Elcana oferecia sacrifícios, dava porções à sua mulher Penina e a todos os filhos e filhas dela. Mas a Ana dava uma porção dupla, porque a amava, mesmo que o Senhor a houvesse deixado estéril. E porque o Senhor a tinha deixado estéril, sua rival a provocava continuamente, a fim de irritá-la. Isso acontecia ano após ano. Sempre que Ana subia à casa do Senhor, sua rival a provocava e ela chorava e não comia. Elcana, seu marido, lhe perguntava: "Ana, por que você está chorando? Por que não come? Por que está triste? Será que eu não sou melhor para você do que dez filhos? "

Essas provocações desafiaram Ana, fizeram-na sair da sua zona de conforto: de receber porção dobrada dos sacrifícios de Elcana, de ser a amais amada. Ana se moveu, buscou ajuda. Assim diz 1 Samuel 1. 9-19:

“Certa vez quando terminou de comer e beber em Siló, estando o sacerdote Eli sentado numa cadeira junto à entrada do santuário do Senhor, Ana se levantou e, com a alma amargurada, chorou muito e orou ao Senhor. E fez um voto, dizendo: Ó Senhor dos Exércitos, se tu deres atenção à humilhação de tua serva, te lembrares de mim e não te esqueceres de tua serva, mas lhe deres um filho, então eu o dedicarei ao Senhor por todos os dias de sua vida, e o seu cabelo e a sua barba nunca serão cortados. Enquanto ela continuava a orar diante do Senhor, Eli observava sua boca. Como Ana orava silenciosamente, seus lábios se mexiam mas não se ouvia sua voz. Então Eli pensou que ela estivesse embriagada e lhe disse: Até quando você continuará embriagada? Abandone o vinho! Ana respondeu: Não se trata disso, meu senhor. Sou uma mulher muito angustiada. Não bebi vinho nem bebida fermentada; eu estava derramando minha alma diante do Senhor. Não julgues tua serva uma mulher vadia (filha de Belial); estou orando aqui até agora por causa de minha grande angústia e tristeza. Eli respondeu: Vá em paz, e que o Deus de Israel lhe conceda o que você pediu. Ela disse: Espero que sejas benevolente para com tua serva! Então ela seguiu seu caminho, comeu, e seu rosto já não estava mais abatido. Na manhã seguinte, eles se levantaram e adoraram ao Senhor; então voltaram para casa, em Ramá. Elcana coabitou com sua mulher Ana, e o Senhor se lembrou dela.”

 

A verdade é que ninguém gosta de ter uma Penina por perto. Mas, as “Peninas”, na maioria das vezes, são necessárias para nos provocar, nos questionar, nos desafiar. São nos momentos mais difíceis e desafiadores que nos movemos mais; buscamos saídas e alternativas. Se é verdade que as críticas ou provocações nos tiram da zona de conforto, também são elas que nos fazem mover, mudar o ritmo ou a direção daquilo que estamos – ou não – fazendo. Nos impulsionam a criar novas alternativas.

Bem, Ana veio a ser a mãe do profeta e juiz Samuel. 1 Sm 1.20:

“...ela concebeu e, passado o devido tempo, teve um filho, a que chamou Samuel, pois dizia: Do Senhor o pedi”.

E depois disso Ana teve outros filhos e filhas...

 

Presb. Sebastião Faustino de Paula