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O padrão social e a mente de Cristo

Domingo, 18 de julho de 2021.

O padrão moral social é o primeiro com o qual nós temos contato desde a infância, sendo que a influência religiosa no Brasil ainda é um fator de considerável relevância. Nosso comportamento é fiscalizado por esse padrão social ao qual, naturalmente, somos impelidos a nos moldar, sob pena de não sermos aceitos nos diversos grupos sociais. A partir dessa realidade, podemos fazer algumas considerações, e gostaria de expor essa pequena reflexão sobre dois aspectos: 1) O padrão social será sempre um bom modelo para o cristão?; 2) O padrão de Cristo pode superar o padrão social?

Em primeiro lugar queria chamar atenção para a importância que é preciso dar à percepção pessoal que individualmente temos de Cristo. Veja que Jesus perguntou aos seus discípulos o que o povo dizia sobre Jesus e sobre quem ele era (Mt 16. 13-16). Porém, Jesus finalmente chegou a um ponto crucial: “E vocês? Quem vocês dizem que eu sou? - perguntou Jesus” (v.15). Se não respondermos a essa pergunta dentro de nós, vamos passar a vida inteira a nos esforçar para fazer o bem, mas o bem vai sempre mudar de lugar ao sabor do imperativo social. Uma coisa é ter a referência de vida em Cristo Jesus e outra coisa é ver Jesus como os demais do povo, como um profeta ou um bom homem.

Iniciando o primeiro aspecto que iremos abordar, por meio de uma mera observação da história já é possível concluir que o padrão social é caótico e não se sustenta em nenhuma base que inspire confiança. A história humana cambaleia por tendências momentâneas e inspirações fúteis que levam a humanidade a constantes crises, insatisfações, injustiças e guerras. Não consigo enxergar virtude, mas apenas luta por interesses de supremacia de ideias e na luta pelo poder. Essa luta pelo poder tem por objetivo retroalimentar o desejo de fazer impor esses mesmos ideais.

Em Tiago 4:4, somos exortados que a amizade com o mundo é inimizade com Deus e quem quer ser amigo do mundo faz-se inimigo de Deus. Portanto, a Bíblia não concorda que o padrão social do mundo sirva como modelo para o cristão. O Evangelho de João também apresenta uma relação de ódio do mundo em relação a nós, por não pertencermos a ele (mundo). Vejam em João 15.18-19: “Se vocês fossem do mundo, o mundo os amaria por vocês serem dele. Mas eu os escolhi entre as pessoas do mundo, e vocês não são mais dele. Por isso o mundo odeia vocês.”.

Os apelos de amizade do cristão com o mundo procuram mostrar uma intenção que, mesmo sem compreendermos bem, está disfarçada de virtude. Não sejamos ingênuos de achar que o imperativo social se apresenta como mau no primeiro momento. Normalmente, esses modelos possuem bons argumentos e apresentam soluções óbvias que conseguem seduzir qualquer um.

Assim, respondendo ao primeiro ponto, o padrão social nunca será um bom modelo para o cristão. O Apóstolo Paulo já nos ensinou a não nos conformarmos com este século, mas a nos transformar por meio da renovação da nossa mente, buscando a vontade de Deus para nossa vida em Sua Palavra. Romanos 12.2: “E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.”

Quanto ao segundo aspecto que nos propomos a abordar, visa tentar aferir se o padrão de Cristo poderia superar, em termos práticos, ao padrão social.

Fui impelido a pensar em uma hipótese, imaginem se todos nós devêssemos prestar contas unicamente a Deus, comprometidos em fazer o certo e agradar somente ao nosso Deus. Como se ele fosse um chefe 24 horas por dia da nossa vida e estivesse permanentemente olhando para o nosso trabalho. Imaginem que todos os homens e mulheres vivessem dessa forma. Não haveria polícia, justiça, fiscal, nem pessoas para nos controlar. Vocês já pensaram como seria esse mundo? Será que algum carro iria se chocar? Será que alguém iria maltratar outra pessoa? Será que alguém iria matar o outro? Roubar? Explorar? Humilhar? Será que algo daria errado?

Posso responder a essas perguntas, ao tempo que é preciso reforçar a premissa feita inicialmente de que todos deveriam ter o sentido único de servir a Deus por verdade. Daí, concluiria facilmente que esse padrão de Cristo é suficiente para superar qualquer condição humana ou padrão social. Portanto, o padrão de Deus para nossa vida é indubitável, é superior e elevado, devendo ser o alvo permanente das nossas vidas.

Façamos a leitura de 1 Coríntios 2: “Eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não o fiz com ostentação de linguagem ou de sabedoria. Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado. E foi em fraqueza, temor e grande tremor que eu estive entre vós. A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder, para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria humana, e sim no poder de Deus. Entretanto, expomos sabedoria entre os experimentados; não, porém, a sabedoria deste século, nem a dos poderosos desta época, que se reduzem a nada; mas falamos a sabedoria de Deus em mistério, outrora oculta, a qual Deus preordenou desde a eternidade para a nossa glória; sabedoria essa que nenhum dos poderosos deste século conheceu; porque, se a tivessem conhecido, jamais teriam crucificado o Senhor da glória; mas, como está escrito: Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam. Mas Deus no-lo revelou pelo Espírito; porque o Espírito a todas as coisas perscruta, até mesmo as profundezas de Deus. Porque qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o seu próprio espírito, que nele está? Assim, também as coisas de Deus, ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus. Ora, nós não temos recebido o espírito do mundo, e sim o Espírito que vem de Deus, para que conheçamos o que por Deus nos foi dado gratuitamente. Disto também falamos, não em palavras ensinadas pela sabedoria humana, mas ensinadas pelo Espírito, conferindo coisas espirituais com espirituais. Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. Porém o homem espiritual julga todas as coisas, mas ele mesmo não é julgado por ninguém. Pois quem conheceu a mente do Senhor, que o possa instruir? Nós, porém, temos a mente de Cristo.” 

Presbítero Misael Guerra

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