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Mais do que fazer uma carta é SER UMA CARTA DE CRISTO

Domingo, 17 de outubro de 2021.

Vocês demonstram que são uma carta de Cristo, resultado do nosso ministério, escrita não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de corações humanos. (II Co 3:3)

Divisões internas e a condução de falsos mestres na igreja de Corinto tentavam descredenciar a autoridade e o ministério do Apóstolo Paulo. Ele sofria rejeição dos judeus e sua pregação instigava a ira de líderes religiosos que, muitas vezes, provocavam sua expulsão das cidades. Havia a tentativa dessas pessoas em tirar a autoridade de Paulo como Apóstolo Cristo.

Paulo não tinha carta de recomendação das autoridades judaicas. Não tinha procuração dos judeus cristãos como ministro do evangelho. Paulo sofria perseguição de toda ordem e era perseguido também pelos judeus não cristãos.

Nesse texto, Paulo estava se defendendo dessa situação. Essencialmente, afirmava não precisar de qualquer carta de recomendação. Ele pretendia demonstrar que o resultado do seu ministério já era suficientemente capaz de suprimir a necessidade de qualquer carta de recomendação ou procuração.

Na época, era mais comum do que hoje as pessoas usarem cartas de recomendação para terceiros realizarem atos ou negócios em nome de outros, ou apenas para se apresentarem e desfrutarem da confiança e respeitabilidade.

Contudo, mesmo dentro de um contexto comum e compreendendo a relações sociais e políticas existentes, a Palavra de Deus transcende aos acontecimentos para destacar o valor de sermos “cartas vivas”. É uma expressão que transpõe a práxis das relações sociais relatadas no texto para nos levar a ver a inspiração do Espírito Santo para nossas vidas hoje.

Para além da carta de recomendação, uma relação de confiança, que inspira segurança e reconhecimento, fortalece a relação, deixam os envolvidos mais próximos e conhecidos e pode até produzir afeto e amor entre as pessoas. Esta relação não é construída de qualquer forma. É preciso conviver, gastar horas no relacionamento.

O contexto de cartas serve para exemplificar as manifestações de confiança, autoridade, credibilidade, respeito, admiração, carinho e amor, visto que podem ser expressas também por manifestações pessoais, presenciais e verbais.

Ninguém faz uma carta de apresentação para qualquer um se não o conhecer, se não souber quem é e do que é capaz.

Apesar de estar somente no final do capítulo 3, no versículo 18, não é esta a conclusão para o final desta reflexão, porém é a conclusão implícita e central. É a necessidade de cada vez mais e constantemente ter a face descoberta para contemplar a glória do Senhor e sermos transformados segundo a imagem de Cristo.

“E todos nós, que com a face descoberta contemplamos a glória do Senhor, segundo a sua imagem estamos sendo transformados com glória cada vez maior, a qual vem do Senhor, que é o Espírito.” (II Co 3:18)

Vejam que interessante, as cartas demonstram esse nível maior de conhecimento e relacionamento a que estou me referindo e fazem com que elas expressem a confiança e recomendação de alguém. Como mencionei antes, não é qualquer pessoa que será alvo desse reconhecimento, é preciso estar na relação “sendo transformado com glória cada vez maior”. Por isso, a primeira mensagem, apesar de estar no final do texto, é para nós investirmos nesse relacionamento, que, no fundo, é tratamento para nossa alma, é sabedoria para a vida, é regozijo e é capacitação para nos apresentarmos como “carta de Cristo”.

Agora, voltando à parte inicial do texto, vejamos que aqui há referência a uma relação que estava desgastada. A intenção de Paulo era eliminar qualquer desconfiança gerada por intrigas e contendas. Para isso, ele faz perguntas retóricas:

Será que tenho que recomendar a nós mesmos?

Será que temos de fazer recomendação de nós mesmos a vocês? Ou pedir recomendação a vocês?

 

No decorrer do texto, Paulo apresenta todos os argumentos que poderiam fazer com que a confiança fosse restabelecida ou conquistada, para que não restasse dúvidas de que ele próprio é uma carta que encontrou outras pessoas que foram capacitadas a serem também cartas de Cristo.

Inicialmente, ainda no capítulo anterior, Paulo chama a atenção para o fato de que ninguém está capacitado para esta missão. Ao perguntar: “Mas, quem está capacitado para tanto?” (II Co 2:16). No versículo seguinte, ele afirma que fala diante de Deus como homem enviado por Deus.

Na sequência, reforçando ainda mais esta total dependência de Deus, já nos versículos 5 e 6 do capítulo 3, ele abre mão de reivindicar qualquer mérito, afirmando que a capacidade vem de Deus, dizendo que foi Ele que nos capacitou.

Quais seriam então os pontos a serem destacados para demonstrar ser desnecessária qualquer outra carta de recomendação e de que todos poderiam ter plena confiança na integridade do ministério de Paulo.

1 – o testemunho de cada um – No versículo 2, Paulo afirma que somos uma carta para ser conhecida e lida por todos;

2 – a relevância da mensagem – No versículo 15 do capítulo 2, Paulo afirma: “Porque para Deus somos aroma de Cristo entre os que estão sendo salvos...”; e

3 – Ser carta de Cristo é ser ministro da nova aliança: No versículo 6, Paulo diz: “Ele nos capacitou para sermos ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do Espírito ...”

Não há espaço aqui para detalhar cada um desses argumentos apresentados por Paulo, mas é muito importante nos referirmos ao texto de I Co:9-11, acerca do testemunho de cada um de nós, quando Paulo se reportava à condição de vida entregue ao pecado daqueles que hoje são cartas de Cristo, ao atestar a verdadeira transformação de vida daqueles irmãos, afirmando: “Assim foram alguns de vocês”.

Se podemos dizer que há um verdadeiro e profundo diferencial entre a nossa vida anterior ao conhecimento de Cristo e a vida que temos hoje é o primeiro aspecto a testificar diante dos homens e de Deus que somos carta de Cristo.

Pres. Misael Guerra

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